Pele e Osso com Recheio
   
 



BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish
 

  Histórico

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




 

 
 

Cinema sozinho é a maior diversão

Sábado retrasado eu fui ao cinema sozinho. Tem gente que não gosta de jeito nenhum e que prefere levar namorada, mãe, cachorro e papagaio a tiracolo. Claro que eu prefiro ir acompanhado, mas por mim tudo bem se tiver que ir só. Procuro curtir a experiência e me divertir do mesmo jeito.

Quando eu era mais novo ia ao cinema sozinho com mais frequência. Na maioria das vezes, os amigos iam juntos. Em algumas ocasiões, porém, eu me mandava sem qualquer companhia, a não ser uma latinha de refrigerante e um pacote de cheetos ou de biscoito recheado, quando não os dois.

Hoje quase não faço isso. Não estou reclamando. É apenas uma constatação. Há gente que daria tudo para ter um namorado, um amigo ou um personal acompanhante. É legal, claro. Se for namorada, tem conversa, amasso, ombro pra se encostar e um saco de pipoca a mais. Se for amigo, tem bate-papo. Se for paquera, tem uma tentativa, duas tentativas, três... Se você for rápido no gatilho, tem beijo e amasso antes dos créditos subirem.

Sem dúvida, companhia no cinema é muito bom. Mas também é legal ir sozinho e não importa se você está lá sem ninguém ao lado voluntariamente ou por força do destino. A grande dica pra não sentir a “solidão” é saber escolher o gênero do filme. Me recordo de um amigo que tinha sido dispensado pela namorada e foi assistir ao musical Moulin Rouge na última sessão. Saiu deprimido e com uma sensação de cornidão infinita.

O caminho das pedras é optar por uma comédia, o que faz o tempo passar rápido. Os mais tarados vão dizer que a grande pedida é assistir a um pornozinho. Os nerds devem votar nos filmes cabeça ou em ficção científica. Cada um com seu cada qual. Sozinho, eu dispenso os dramas e os filmes românticos. Além da comédia, aposto numa película de ação, suspense ou terror. Nesta ordem.

Minha última visita ao cinema sem ninguém por perto, por exemplo, foi divertida. E quando falo sem ninguém, é sem ninguém mesmo. Tinha umas 11 pessoas na sala de exibição e todas longe da minha fileira. Eu sabia que não estava só por conta das gargalhadas que ouvia. O filme (Se beber não case) valeu o ingresso. Politicamente incorreto até dizer chega.

Aliás, se alguém politicamente correto chegar a ler este texto vai me chamar de limitado e imbecil, pra ficar no mínimo. O meu lado cinéfilo tem espaço para tudo, mas confesso que não tenho muita paciência para certos tipos de filme e aí não importa se estou acompanhado. Lembro de um tal Spider que vi no Cinema da Fundação. Só não me matei na hora em consideração à minha amiga Silvana, que me convidou.

De qualquer forma, não importa o gênero ou se você está acompanhado ou sozinho. Veja filme na telona sempre que der. Assim como a viagem é mais importante que o destino (quem gosta de viajar sabe do que falo), marcar presença no cinema é o grande barato. É a volta à infância, é a curiosidade aguçada pelo trailer, é o riso, é o choro. A maior diversão.



Escrito por f.benites às 21h05
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Malandro é o gato, que já nasceu de bigode.

Nós, brasileiros, somos engraçados. Estamos sempre dispostos a falar mal do senador que emprega o neto, do candidato que distribui dinheiro em troca de voto ou do vereador que quase não comparece ao trabalho. Odiamos a classe política porque vemos nela um grupo de privilegiados dispostos a tirar vantagem de tudo e de todos.

No cotidiano, porém, nós, brasileiros, não agimos muito diferente das vossas excelências, sejam elas corruptas ou corruptoras. Basta uma mínima chance para que possamos mostrar nossa natureza e o discurso ético cai por terra. Neste feriado de 7 de setembro, tive mais uma prova inconteste da capacidade do brasileiro de querer se dar bem a todo custo.

Eu e Sheyla fomos a Porto de Galinhas buscar a mãe dela e nossa querida tia Lúcia. Passamos parte da tarde presos no trânsito, atrás de uma fila interminável de carros, vans e ônibus. A todo instante, motoristas impacientes tentavam passar a vez de quem estava na frente, mesmo que isso custasse invadir a faixa dos carros que trafegavam em sentido inverso.

Em alguns momentos, pensei que fosse arrumar briga com algum dos condutores que vinham a toda velocidade pelo lado errado da pista e tentavam colocar o carro na minha frente. Ao perceber a manobra, eu logo dava uma chega-pra-lá sutil e expulsava o invasor, xingando, intimamente, ele e as suas próximas dez encarnações e gerações.

Perguntem a esses motoristas que se aventuraram a bater de frente com outros carros para retornar mais cedo pra casa o que acham de Sarney, Collor, Palloci, José Dirceu, Renan Calheiros... A maioria diria que são uns bons filhos da puta. Depois, perguntem a eles o que acham dos filhos da puta que se acham espertos e tentam furar a fila no trânsito.

Duvido que a resposta seja tão enfática. Na certa, jorrariam um vasto manancial de desculpas. A mulher de um estaria parindo. O outro estaria levando um infartado a um hospital. O terceiro, vá lá, não daria desculpa nenhuma e de quebra soltaria um risinho sarcástico mandando o questionador para a PQP.

Nós, brasileiros, gostamos de falar que a classe política é cheia de escroques. Na hora da novela, torcemos e gritamos quando o vilão que enganou a mocinha vai parar atrás das grades. Nos enchemos de satisfação quando abrimos o jornal e vemos que algum delinqüente foi abatido a tiros. Nós, brasileiros, desaprovamos as más condutas.

Não desaprovamos da boca para fora. Acreditamos na crítica que fazemos. Mas apenas quando “o inferno são os outros”. Quando chega a nossa vez, achamos que podemos tudo. Se o foco está no eu, passa a ser lícito jogar lixo pela janela do carro, furar a fila do ônibus ou estacionar na vaga destinada a deficientes físicos ou idosos.

Hoje, talvez por estar voltando do litoral e por ser o dia em que a Independência do país foi proclamada, me recordei da música Brasil Pandeiro, de Assis Valente. Para quem não lembra, ela começa assim: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor...”. Nós, brasileiros, mostramos mesmo. E depois ainda dizem que malandro é o gato que já nasceu de bigode. Por falar em bigode, talvez sejamos todos Sarneys... por mais que neguemos.

ps) este texto é dedicado a todos os motoristas que, mesmo cansados, mostraram-se educados e mantiveram-se em seus lugares, sem querer tomar a vez de ninguém e sem achar que o mundo é dos mais espertos.



Escrito por f.benites às 22h43
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Pequena batalha infantil

Na família de Sheyla o que mais tem é criança. De todos os tamanhos, idades, birras, gênero e brinquedos. Assim, de cabeça, posso citar Mateus, Pedro Henrique, José Jonas, Luis Guilherme, Fernanda, Suzana e Laura. Esses são os pequenos que vejo com uma certa frequência, sem falar naqueles com quem não tenho muito contato. Tirando a parte dos que são bebês demais e ainda não têm noção do que é ir com a cara de alguém, me dou bem com todos eles. Ou melhor, com quase todos.

O primeiro a me aceitar como amigo e membro da família foi Mateus, 4 anos. O moleque é brabo, mal-criado e arredio com todos na família. Só aceita as ordens da avó e do pai. No começo, pra variar, não queria papo comigo e só não me mandava se lascar porque ainda sabia o significado disso. Hoje, é meu amigo. E não sou eu quem diz não. É ele. Toda vez que vou embora, ele despede de mim com um "tchau, meu amigo".

Outra que caiu nas graças, e fácil-fácil, foi Fernandinha, também 4 anos. Amor à primeira vista!!! Quando vou a Caruaru, onde ela mora, é um chamego só. É capaz de esquecer pai e mãe para ficar comigo. Sheyla já sabe que se o destino for Caruaru será um dia todo sem namorado, pois Fernandinha vai querer monopolizar toda a atenção, o que quer dizer conversar, conversanr, conversar e pular um pouco em cima de mim.

Pedro Henrique, José Jonas, Suzaninha e Luis Guilherme estão na categoria fralda e chupeta e ainda não esboçam qualquer tipo de simpatia/antipatia ao meu respeito. O humor é variável. Ás vezes, vêm pro colo. Noutras, choram e ficam de cara feia apenas com ao menor sinal de que vou tirá-los do braço de alguém. Quando estão meio azedos comigo, tento subornar acenando com a chave do carro ou os óculos escuros. Dá certo na maioria das vezes.

Da lista inicial, restou Laurinha, 4 anos. E foi justamente nela que pensei ao escrever este texto. Graças a ela que o primeiro parágrafo tem um "quase". Apegadíssima a Sheyla, preferia ver um prato recheado de verduras ou um dia de castigo a me ver. Falar comigo, então, nem pensar. E só falava a muito custo, se o pai ordenasse e Sheyla implorasse.

As artimanhas de Laurinha para me esnobar dão um pequeno conto infantil. Vão desde fingir que não me via durante um dia inteiro até se negar a almoçar na mesma mesa em que eu estava. O pano de fundo dessa implicância é o ciúmes que ela tem de Sheyla, pra ela a prima-tia mais querida de toda a face da terra.

Não me dei por vencido e aos poucos fui tentando vencer o muro que Laurinha criou. Arregimentei Sheyla, o pai dela, a minha sogra e quem mais pudesse me dar uma forcinha e fui à luta. O primeiro passo foi ignorá-la solenemente. Em vez de fazer festa, como no começo, parti para o não tô nem aí. Durou pouco tempo, mas acho que adiantou. Serviu para dar uma cutucada no ego dela.

Em seguida, fui me aproximando de leve, ainda sem muita conversa. Ela foi se acostumando com minha presença, baixando a guarda. Me dispus a ler alguns textos do livro de historinha dela, elogiei a bicicleta nova e fiz aquilo que todo adulto deve fazer para conquista uma criança: truques e mágicas. O carinho com que toda a família de Sheyla me recebe também contou muito. Laurinha deve ter pensado que se todos faziam festa pra mim é porque eu não devia ser tão ruim assim

Com o tempo, a aceitação em relação a mim melhorou muito. Já sorria pra mim, dizia oi, me emprestava uns lápis de cores e permitia pintar junto com ela e com Sheyla. Em algumas ocasiões, até aceitou me dar a mão e tirar uma foto comigo. Sem ranger de dentes e cara feia.

Mas eu sentia que ainda faltava algo. Nesse fim de semana, a rendenção ocorreu. Passei rapidinho na casa de Sheyla e na hora de ir embora Laurinha proferiu as palavras mágicas: "Tu vai embora?" e "Por que tu não fica mais um pouquinho?".

Tentando esconder um sorriso sem tamanho e a alegria por ter conquistado a sobrinha postiça que me faltava, disse que tinha que ir pra casa estudar. Fui embora satisfeito com a rendição dela, negociada sem chantagens emocionais, mas com muita leveza e carinho. Fim da batalha.



Escrito por f.benites às 16h53
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Volta ao passado

Minha proposta para a noite desta quarta-feira chuvosa era estudar e escrever sobre o medo que tenho do mês de agosto. Mas aí me lembrei de um texto do Caio Fernando que li dia desses no blog transitivaedireta.blogspot.com e vi o quanto seria desnecessário falar sobre o mesmo tema. Primeiro, não conseguiria esprimir de forma tão maestral quanto ele o que este mês do cachorro louco representa. Depois, e a bem da verdade, já faz muito tempo que as assombrações agostianas (ou seriam agostinianas?) não rondam a minha vida.

Na verdade, tenho bons motivos para comemorar agosto, sobretudo o deste ano. No próximo dia 26, fará dez anos que entrei em minha primeira faculdade. A alegria nem é tanto pelo ingresso na UFPE, após ter sacrificado parte de 1998 estudando pro vestibular para me encaixar em alguma das poucas dezenas de vagas oferecidas para o meu curso. O que vale celebrar é que há dez anos, mesmo sem saber, estava pavimentando o caminho para construir algumas das amizades mais sólidas que tenho hoje.

O primeiro dia de aula no famoso Centro de Artes e Comunicação ainda está nítido em minha cabeça. Aquela sensação de descoberta, de aventura, de orgulho de mim mesmo, de ter uma vida toda se desenrolando aos pés dos meus 19 anos. Já na aula inicial, eu tentava decifrar quem era legal, quem era pegável, quem tinha a mesma condição social-lascada que eu. Diziam que quem passava na UFPE era filhinho-de-papai e eu tentava descobrir aqueles, iguais a mim, que fugiam à regra.

Felizmente, essa tentativa de rotular meus colegas de classe não foi pra frente e assim pude aproveitar bons momentos com a maior parte de quem passou no vestibular comigo. Todos aqueles nomes que eu vi junto ao meu no listão de aprovados deixaram de ser concorrentes e desconhecidos com notas acima ou abaixo da obtida por mim e passaram a tomar, literalmente, vida.

Engraçado é que os grandes amigos que cultivei e que estão do meu lado até hoje (mesmo se fisicamente alguns estão do outro lado do mundo ou do outro lado da vida) não eram aqueles de quem eu primeiro me aproximei enquanto ainda tateava pelo fantástico mundo do CAC, com suas porra-louquices de um canto a outro. Esses só vieram a se tornar presença constante na minha roda de bate-papo algum tempo depois. Para compensar o pequeno tempo perdido, quando chegaram me deram a chance de adquir prontamente a carteira de sócio vitalício de seus conselhos e carinhos.

Se eu tivesse tempo, revisitaria as casas de Porto de Galinhas onde fizemos farras, as salas de aula por quais passamos, a parada de ônibus em frente ao CAC, o lago da UFPE e o Bar do Bigode. (Sobre este bar, um parêntesis: é o único do Recife onde se pode beber quando se está gripado, pois a cerveja vem sempre quente). Esses são alguns dos lugares onde demos nossos passos em direção à união que temos hoje.

Não vou listar aqui o nome completo dos alunos da minha turma, muito menos daqueles que hoje me são fraternos. Esses sabem o lugar que ocupam em minha vida e têm certeza que serão mencionados na série "Histórias para contar aos netos", popularmente conhecida como "A Bagaceira". Este texto é para eles, mas é também para todos que compartilharam comigo, de 1999 a 2004, algum tipo de farra, conselho, discussão acadêmica ou papo-cabeça pelos corredores do CAC.

E vai além. Chega aos agregados. Aqueles que não faziam parte do curso, mas que entraram na minha vida puxados por um dos colegas de classe. Uns, foram só de passagem e nem tenho mais notícias. Periga até nem lembrar do nome se encontrar na rua. Outros (não é, dona Lívia) chegaram chegando e hoje estão aí, compartilhando e distribuindo carinho. Matricularam-se em outros cursos, andavam por corredores de prédios distantes, marcaram uma opção diferente no formulário do vestibular... de nada adiantou. Entraram pro clube. Ainda bem!



Escrito por f.benites às 23h35
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Desinformação suína

Ser jornalista é engraçado às vezes.  Todo mundo acha que a gente sabe de tudo, que está por dentro das últimas novidades e até daquilo que ninguém nem ouviu falar ainda. Quando chego à casa de minha mãe na hora do telejornal é quase certo que ela vai comentar algo sobre o que está passando na expectativa que eu amplie a informação como se soubesse de um fato exclusivo e fosse compartilhar com ela em primeira mão. Ou como se eu conhecesse o outro lado da verdade, que por qualquer motivo não pôde ser divulgado.

Se não falo nada além daquilo que ela já sabe ou que foi dito na reportagem fica um clima de decepção no ar. Dona Antônia deve pensar por que tanto esforço em tentar me manter num colégio particular durante boa parte da vida estudantil se agora eu não consigo nem retribuir com informações exclusivas que a fizessem olhar com ar superior para as mães de outros jornalistas e dizer: “O meu filho sabe de tudo. É melhor que o Willian Bonner”.

Isso se repete em maior ou menor grau em toda família. Quando minha tia Ivone, a quem considero uma segunda mãe, me encontra e comenta um assunto que não sei logo vem a reprimenda: “Que jornalista é esse que não sabe de nada”. E não importa se o nada em questão tem a ver com assuntos tão disparatados como a Britney Spears estar grávida de trigêmeos ou Fernando Collor ser novamente candidato a presidente da República. Virou notícia, tenho pelo menos que saber o lide.

Claro que estou carregando nas tintas. Ninguém da minha família é tão carrasco comigo assim, embora sempre me utilizem como referência para saber das últimas.  Me esforço para estar antenado. Com exceção de economia, assunto para o qual não tenho muita paciência, procuro me informar sobre o que me cerca e sobre o que chama a atenção da sociedade. Mas existem assuntos que por mais que estejam na mídia eu não consigo acompanhar e me sinto analfabeto de pai, mãe e parteira.

A gripe suína é um deles. Já ouvi entrevistas no rádio, vi especialistas falando na TV, li matérias nos jornais e sites. Porém, quanto mais leio, menos entendo. A cada dia se fala algo diferente. Hoje mesmo vi uma chamada no site do JC Online que colocava em xeque a eficácia do Tamuflu para crianças. Para quem anda menos informado do que eu, esse é o medicamento indicado para quem contraiu o vírus H1N1, responsável pela gripe.

Dos profissionais de saúde, já vi e ouvi os mais diversos comentários. O mais comum é que não havia motivos para preocupação. Depois que as pessoas começaram a morrer no Brasil as declarações assumiram outro tom. Eu leio, leio, leio e não encontro uma informação segura. Só mil opiniões que, talvez para o cidadão de pensamento mediano, mais atrapalhem do que ajudem.

Lá pelos meus dez anos de idade houve o surto do cólera. Não lembro se foi em todo o Brasil ou apenas no Recife. Recordo apenas que as informações sobre como se pega e como se evita eram de fácil assimilação. Assim como a dengue. Todo mundo sabe que a dengue mata, que não se deve deixar água parada a céu aberto e a diferença entre o tipo comum e o hemorrágico. Já sobre a gripe o que vemos são dados desencontrados e o estoque de álcool em gel sumindo das prateleiras. Sem falar nas escolas fechando as portas e nas pessoas passeando pelo shopping com suas máscaras.

Tento me manter calmo e lavar a mão mais vezes ao longo do dia. Esse é um dos pontos de convergência nas reportagens que leio a respeito da gripe suína. No mais, é torcer para que o surto diminua e para que descubram logo uma vacina eficaz contra a doença. Assim, ficarei mais tranqüilo e poderei voltar, sem medo, minha atenção para outros assuntos e fazer a alegria da minha mãe e da minha tia com informações exclusivas.

Atualizado em 12/08, às 20h: No prédio da prefeitura, que tem uns 15 andares, o pânico já está disseminado. As caras são de pânico no elevador. Todo mundo se monitorando, tentando adivinhar quem está gripado ou não. É preferível soltar um pum a dar um espirro.

 



Escrito por f.benites às 22h17
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Conversa Diet

Dieta não é fácil. Falando assim, até parece que estou gordo para se arrombar, ou melhor, para arrombar minhas taxas de triglicerídeos e colesterol. Sei até que é uma ofensa eu falar em dieta com meus 1,80m e 82 kg. Em tese, não deveria reclamar da vida. Mas tem umas gordurinhas na barriga que denunciam que há algo errado. E o pior: que algo doloroso e sem açúcar precisa ser feito.

Então, diante dos, er... bem... ahn... digamos “excedentes abdominais”, resolvi comer menos. Aliás, comer menos e melhor. Não é fácil. Muito pelo contrário. A lei para mandar o peso extra ao espaço é comer porções pequenas em intervalos menores de tempo. E abrir mão de toda a sorte de porcarias que nos oferecem na rua. Quase nunca isso é possível e vou me virando como posso.

Na noite de hoje, tive mais uma prova de que a luta é ferrenha. Saí direto de uma reunião no centro da cidade para o outro lado do mundo, onde fui participar como convidado de uma banca acadêmica. Entre uma atividade e outra, não sobrou tempo nem para um confeito de aveia e mel light. A aluna que me convidou falava sobre a relação entre a governança pública e as novas tecnologias e eu só conseguia imaginar a relação de um pão com queijo e presunto e ovomaltine.

Quando a reunião terminou, estava a ponto de comer o que (e não quem) visse pela frente.
Ciente de que não havia nada em casa, passei no supermercado. O primeiro teste de fogo foi logo na entrada quando vi o letreiro do Bugaloo com um cartaz do Buga Coração de Galinha. De tão gostoso, esse sanduba chega a ser pornográfico. Deviam exigir receita médica para remédios tarja preta e a comprovação da maioridade só para dificultar o acesso a ele.

Fiquei parado em pé, salivando e um com um olhar de cachorro pidão por pelo menos uns três minutos até, !!!saudemos a força de vontade do homem, irmãos!!!, consegui articular a perna esquerda e depois a direita até a direção contrária. Num misto (quente?) entre o orgulhoso e o resignado fui em direção à cestinha de compras, já pronto para outra batalha.

A segunda prova foi passar pela seção onde vendem deliciosas baguetes com presunto, salame ou frango e um punhado de tomate e alface apenas para que nos sintamos com um pouco menos de culpa. A fila estava grande e isso me ajudou a não cair em tentação, pois eu odeio fila. Aqui vai a dica aos gulosos de plantão: a baguete é vendida no Extra, mas não falem no Vigilantes do Peso que eu indiquei.

O terceiro e último teste foi selecionar o que ia para dentro da cesta. Fosse um comercial de TV, certamente veríamos dois eu. Um escolhendo pão integral, presunto ligth, cenoura e beterraba cozidas e prontas para o consumo e outro de sorriso maquiavélico e sem a mínima dor na consciência com a mão literalmente na massa: nhoc, pão bisnaguinha e biscoito recheado. Bono sabor chocolate, hmmm.

Mais uma vez o lado racional venceu e o saldo comercial foi pouco calórico. Ao voltar para casa, com a fome ainda mais canina, tratei de desembrulhar tudo com a mesma delicadeza e paciência que um guri de 14 anos tira o sutiã da namorada pela primeira vez. Não consegui desatacar o nó das sacolas e parti para a ignorância pura e crua, destroçando o que via pela frente e deixando um rastro de sacos plásticos pelo apartamento.

Daí em diante fiz valer a máxima de que nós, geminianos, temos mente fértil e uma criatividade ímpar. Devorei cada pedaço da minha janta como se fosse um Buga Coração. O leite light desceu como se fosse uma Fanta gelada em pleno deserto Saara. Entre uma mordida e um gole ia fantasiando as mais indecentes e engordantes combinações gastronômicas. Minha imaginação volúvel ia da empadinha de camarão a croiassants em poucos segundos. Tudo para facilitar a ingestão e enganar a vontade de ligar pro Habib´s e pedir seis esfihas de queijo no capricho.

Não sei se nos próximos dias terei o mesmo equilíbrio desta noite. A minha sorte para não transformar meus 82 kg em três dígitos na balança é que não sou fã de barras de chocolate ou de Big Mac. Na verdade, passo muito tempo sem olhar para doces e nem do Mc Donald´s eu gosto. A minha tara é outra. Passa muito mais pelo filé com fritas, pela cervejinha esperta e pelo churrasco onipresente na casa de Sheyla.

Por falar nela, estamos juntos no projeto da dieta. Ela que começou com essa idéia fixa de que precisava emagrecer. Deviam fazer uma tese sobre a obsessão das mulheres em pesar 50 kg. Essa parece ser uma meta sagrada que acomete a maior parte do sexo feminino. E para se encaixar neste patamar são capazes de tudo. Se o projeto não tem êxito, o namorado ou marido que se dane, pois certamente perderá a companheira de blitz em pizzarias.

Esse foi o meu caso. De tanto ouvir a palavra dieta e uma dezena de variáveis como dieta da sopa, dieta da lua e dieta do saci pererê, comecei a me questionar se não deveria embarcar na onda. E aqui estou eu, solidário e de mãos dadas com os gordinhos e com os magros neuróticos. Posso até dizer que estou ainda mais focado no projeto do que Sheyla (que, vale salientar, não precisa perder nem um grama).

Vamos nos dando força mutuamente. Se um fraqueja, o outro está lá para fazer um mini-terrorismo com informações precisas sobre proteínas, carboidratos e gorduras trans. Às vezes não funciona. No último sábado, pisamos na bola. Fomos para uma barzinho com um casal de amigos, que por sinal também vive de dieta ou pelo menos tenta. Em cerca de três horas, contabilizamos muita conversa, alegria, coxinhas de galinha, refrigentes, cervejas e batata frita.

Contudo, isso é passado e nesta segunda-feira consegui retomar a minha "jihad" diet. Pelo menos por hoje, só hoje, posso dizer: meu nome é Franco Benites, tenho 29 anos e estou há dois dias sem ingerir porcaria. E a luta continua!



Escrito por f.benites às 22h54
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Medo do medo que dá

Hoje, eu quero falar sobre medos. Os meus medos. Não todos, claro. Nem eu mesmo saberia dizer com exatidão a lista completa do que me assusta. Assim, de cabeça, tenho apenas alguns medos a relatar. Uns bestinhas, que não passam de assombrações bobas de tão improváveis que são de acontecer, e outros reais. Esses medos realistas sim me dão pânico. Tive essa idéia súbita de enveredar pelo caminho medonho hoje de manhã.

Tenho me esforçado para me acordar cedo e ir à academia. Sempre que o fôlego e as pernas deixam, volto correndo para casa. Mas nesta terça-feira interrompi o meu cooper matinal por causa de um cachorro. Não era um lobo disfarçado de pitbull ou de doberman. Era apenas um vira-lata. Mas, ainda assim, achei prudente parar a corrida e seguir num ritmo que não chamasse a atenção do totó.

Ao chegar em casa, me dei conta do vexame. Ainda bem que era cedinho e não tinha gente na rua para presenciar o mico de me ver parar uma corrida por conta de um cachorro sarnento e simpático. Ele, coitado, estava alheio à minha presença e parecia mais interessado em encontrar algo para comer. Mas só de ver aquela figura de quatro patas um pouco à frente me bateu uma nóia. E se ele resolvesse avançar em mim?

Pronto, é isso. Agora é público e oficial. Tenho medo de cachorro, com exceção de poucas raças. Dou a quem ler este blog o direito de tirar onda com a minha cara por conta disso. Antes, era um privilégio apenas das pessoas mais próximas. O meu primo Márcio talvez seja quem mais se diverte às minhas custas. Se eu e um cachorro grande e assustador (e olhe que nem precisa tanto) estivermos num mesmo espaço é garantia de risada certa dele.

Em 2005, fui ao Rio de Janeiro visitar a parte carioca da família. Lembro que quando meu pai e eu entramos com o carro na garagem da casa dele a primeira coisa que vi foi um pitbull. Foi o suficiente para não querer descer do carro até que o monstro estivesse preso. Sugeri acorrentá-lo, mas a idéia não colou. Antes de voltar ao Recife até tirei uma foto com Playboy (quer nome mais sugestivo para um pitbull carioca??). Eu de um lado, e ele do outro, atrás de um gradil que meu pai garantiu ser resistente.

Gostaria de me lembrar como esse medo de cachorro se desenvolveu. Porque, até onde me recordo, na infância não era assim. Lembro de algumas vezes que desafiei os cachorros dos vizinhos e levei umas carreiras. Pode ter começado por aí. Outra pista é o fato de ter ouvido a história de que quem é mordido por um cachorro tem que tomar injeção na barriga. Quando eu era criança, a lenda falava em trinta agulhadas. Acho que não é verdade e não estou muito a fim de descobrir.

Até porque injeção é outra coisa horripilante. Dei muitos escândalos para tirar sangue. E na época das vacinas então? Quando não era em gotas eu só ia ao posto de saúde porque tinha um maior de idade para me forçar. Esse medo tem explicação também. Lá pelos sete anos precisei tomar uma série de benzetacil, uma injeção mais forte que as outras. Foi um ano nesta brincadeira. Hoje, sou doador de sangue e confesso que na hora da agulhada nem sinto nada. Mas o medo persiste. Minha amiga Sil que o diga. Pedi para ela me acompanhar na minha primeira ida ao hemocentro porque achei que não seguraria a barra.

Outro medo da minha lista, e esse sim é o pior de todos, é o de perder as pessoas que amo. Não gosto nem de pensar nisso. Esse medo me paralisa tanto que o pensamento nem evolui. Também tenho medo de morrer. Antigamente, não tinha. Mas hoje...  Vai ver é porque quero estar próximo o máximo possível da namorada, dos amigos, da família. Seria muito ruim deixar as coisas mundanas para trás. Preciso evoluir e mudar este pensamento, praticar o desapego.

Um amigo de faculdade uma vez me disse que tinha medo de ser enterrado vivo. Esse temor eu nunca senti apesar de ter ficado com falta de ar ao ver a cena de Kill Bill em que Uma Thurman é presa num caixão. Também não tenho problemas com altura, um pavor que atinge a maior parte das pessoas. E filme de terror? Outro amigo meu fala até hoje do quanto ficou impressionado com o Exorcismo de Emily Rose. Eu tomo os sustos de praxe e assim que os créditos esqueço tudo.

Aliás, filmes de terror me assustam menos que alguns dramas e suspenses. Quando assisti a 21 Gramas saí do cinema arrasado. Se pudesse, reuniria todas as pessoas que amo na hora porque me veio um temor de perdê-las. A luz do pavorômentro também acendeu, em menor grau, quando assisti a Babel. Os dois filmes são do mesmo diretor, o mexicano Alejandro Gonzalez Inarritu, e me deixaram com a sensação de que – CLICHÊ – é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

Abaixo, seguem algumas coisas das quais tenho medo e outras que me deixaram de assustar. Não estão na ordem de importância e sei que daqui alguns anos essa lista será modificada, afinal, tudo se relativiza.

Medo de:

Doenças graves
Ficar numa cama de hospital ou depender da boa-vontade dos outros não dá. Esse medo se emenda a outro, que é o de hospital. E olhe que até o 2º ano queria fazer Medicina. Mas, definiticamente, hospital e eu não combinamos

Falta de grana
Pensar que não vou poder pagar as minhas contas é algo que tira meu sono. Desde que comecei a trabalhar não fiquei mais de um mês desempregado. Já passei por situações difíceis, mas sem emprego não. Conhecer esse lado da moeda me aterroriza.

Barata
Ok, ok. Essa história de dizer que era nojo não cola. Cá pra nós, é medo mesmo. De qualquer forma, se tiver que entrar numa batalha com uma ou várias delas eu compro a briga. Tenho um primo – e não vou dizer o nome para não sacanear – que chama a esposa ou quem tiver por perto. A esse nível não cheguei.

Violência
Quem não tem medo disso, né? Lembro dos bons tempos de adolescência em que voltava para casa de madrugada a pé. Hoje, não me arrisco. Como morador do Recife e pelos sustos que já passei, dou um desconto a esse meu medo.

Perdi o medo de:

Elevador
Odiava elevador. A imaginação fértil da infância pensava sempre que ele ia quebrar e que ficaria preso lá até alguém se lembrar e recolher a carcaça. Não tem fase melhor do que a adolescência para mostrar que o elevador pode ser usado a nosso favor.

Envelhecer
Aos 27 anos, queria parar o tempo. Para que ir além se tudo estava bom do jeito que estava. Vejo que chegar perto dos 30 não é bicho de sete cabeças e certamente entrar na casa dos “enta” não será problema. Brad Pitt, José Mayer e Fábio Júnior estão aí para me provar isso, comendo gente e fazendo menino.

Dizer não
Sabe aquela história de que bonzinho só se fode? O legal da maturidade é que você aprende a dizer não com menos ou nenhuma dor na consciência e escapa de algumas enrascadas. Às vezes, é preciso dizer não. Mesmo ganhando o título de malvado da história.



Escrito por f.benites às 22h40
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Lembranças futebolísticas

Chegamos ao fim da primeira metade do ano. Para muitos, 2009 andou devagar. Para outros, foi rápido demais.  Logo estaremos vendo as propagandas de dia dos pais e dia das crianças e num piscar de olhos os mercados e ruas serão enfeitados com os balangandãs de Natal. Alguns dias depois tudo começa outra vez.

Essa introdução toda sobre o correr dos dias é para falar do passado. Há exatos sete anos, a Seleção Brasileira conquistava o pentacampeonato na Alemanha. Lembro bem do dia 30 de junho de 2002. Aliás, em se tratando de Copa do Mundo, essa é a que tenho as melhores lembranças, sobretudo em relação às farras.

Não me lembro da Copa de 82 (Espanha), pois só tinha dois anos de idade. Da de 86 (México), não me recordo de nenhum jogo, mas sim que minha mãe desmaiou e do pequeno tumulto que se formou na sala onde víamos o jogo. Suspeito que foi a mistura bombástica de álcool com as emoções da seção de pênaltis entre Brasil e França pelas quartas-de-final.

Em 1990 (Itália), comecei a sofrer com a Seleção. Em 1986, eu não tinha noção da tristeza que era ver o Brasil se despedir de uma Copa do Mundo, mas quatro anos depois... Por motivos diferentes, xinguei o time argentino e o brasileiro com toda a força e o vocabulário que uma criança de 10 anos poderia ter na época.

Apesar da alegria de ver o Brasil ser tetra, a Copa de 94 (Estados Unidos) não foi tão alegre. Vi a maior parte dos jogos sozinho (não me lembro porque foi assim). Assisti à final na rua, em frente à casa de um vizinho. Era eu, ele e mais umas duas pessoas na frente da TV. Foi bom pelo vitórias, mas ainda assim foi uma comemoração muximbinha.

A Copa da França foi aquela coisa, né. Se em 86 os franceses fizeram minha mãe desmaiar, em 98 me deram muita, muita raiva. Nesse ano, vi os jogos com um olho na TV e outro nos livros, pois era ano de vestibular. Na sala de aula, os professores faziam terrorismo dizendo que quem queria passar na UFPE não parava para ver Copa do Mundo. Fiz o contrário e deu tudo certo.

Já em 2002 (Coréia do Sul/Japão) foi só alegria. A começar que assisti aos jogos com a galera da faculdade.  A abertura, França x Senegal, foi vista num barzinho perto da UFPE. Os jogos do Brasil foram prestigiados em lugares diferentes, mas sempre com muita farra e na companhia dos amigos que faria pela vida toda.

Os lugares variavam sempre. Numa partida contra a Turquia, acho que pela semifinal, a turma toda foi para Porto de Galinhas. Alugamos uma casa por um fim de semana só para ver o jogo e não repetir a escalação das sedes onde víamos as partidas. A tática se mostrou correta.

No dia da final, um 30 de junho como hoje, escolhemos a casa de João Paulo como base. O resultado todo mundo já sabe. Brasil 2 x 0 Alemanha, cachaça e uma romaria para a Avenida Boa Viagem. O dia 30 ainda seria mais feliz pra mim porque à tarde o Náutico venceria o Santa Cruz por 2x1 e se tornaria bicampeão pernambucano.  Eu achava que o Brasil ia dominar a Copa de 2006 e o Glorioso paparia o estadual pelos próximos anos.  Não foi bem assim. Por isso, saudades do feliz 30 de junho de 2002.



Escrito por f.benites às 17h33
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Beat it

Desde quinta-feira que só se fala na morte de Michael Jackson. É rádio, TV, a cambista, o flanelinha, a dona de casa, o executivo e o cheira-cola. Todos só pensam em Michael. Sinceramente, achei que não fosse para viver para alcançar este dia. Embora não seja fã dele e o visse como um ET (vide post abaixo), para mim MJ era uma daquelas figuras imortais. Também pensava assim a respeito do Papa João Paulo II e aí está Bento XVI para me provar o contrário.

Cresci e me acostumei a ver João Paulo II como o único papa que poderia existir, apesar dele ser o 265º chefe supremo da Igreja Católica. Hoje, até que assimilei bem a imagem de Bento XVI. Mas no começo era estranho ouvir a palavra papa e não ver o polonês Karol Józef Wojtyła na TV. Além de Michael Jackson e de João Paulo II, essa minha noção particular de imortalidade também se aplica a outras pessoas.

Como imaginar o mundo sem Sílvio Santos? E olhe que faz tempo que eu não vejo os programas dele. Mas, como pensar que pode haver um domingo sem o dono do carnê do baú, com seu cabelo no laquê? Mar ôe... a resposta é simples: é a vida. Eu sei que é e ainda assim vou me surpreender com a notícia de que Sílvio Santos foi vender a telessena na terra dos pés juntos simplesmente porque ele é o... Sílvio Santos.

Voltando a Michael Jackson. Eu estava no shopping quando escutei que alguém famoso havia sofrido uma parada cardíaca e estava em coma, porém não consegui ouvir quem era a pessoa. Na volta pra casa, no carro, peguei só o final da notícia e novamente não escutei de quem se tratava. A dúvida se desfez em casa, quando assistia a uma inserção do Jornal da Globo. A primeira coisa que pensei foi que este mundo está ficando mesmo estranho e que devo parar de me surpreender.

Lembro-me exatamente onde estava e o que fazia quando ouvi a notícia sobre a morte de determinadas personalidades. Na vez de Ayrton Senna, estava em casa, obviamente vendo a corrida. A notícia sobre o falecimento de Roberto Marinho ficou marcada, pois ocorreu quando fui morar só. Estava na cozinha preparando um dos primeiros jantares da liberdade caseira quando o som do velho plantão da Globo tomou conta do ambiente. Aliás, já ouvi a vinheta para anunciar muitas notícias boas, mas teimo em pensar que vem desgraça pela frente.

Ah, para terminar este texto uma consideração jornalística. No ímpeto de ganhar audiência em cima de MJ, as televisões brasileiras bateram o recorde de canastrice. Soube que o Globo Repórter especial sobre o cantor terminou com uma imagem de Michael com duas asas de anjo. Do pouco que vi, destaco um “ao vivo” de uma repórter da TV Bandeirantes. Ela foi ao Pelourinho, onde Michael gravou uma parte do clipe “They Don't Care About US”, e afirmou que o cantor americano havia deixado muitos amigos em Salvador.

Michael não lembrava nem que foi negro um dia, quem dirá saber onde fica a Bahia. Pior mesmo só a resposta de um dos entrevistados, integrante do Olodum. Com cara de desolação como se houvesse perdido um parente, disse que iria em busca de passagens áreas para poder comparecer ao enterro nos Estados Unidos. E ainda tem o Fantástico pela frente, todo especial sobre o cantor. Ótima hora para assistir ao meu DVD dos Trapalhões.



Escrito por f.benites às 21h13
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Jesus voltou

Que figura estranha é o namorado/amigo de Madonna. Desde que o modelo surgiu para a mídia não vi nenhuma declaração dele. Quer dizer, já vi frases "aspeadas" soltas em alguns textos de revistas e sites. Mas até agora não assisti a um vídeo com ele falando. Fico na dúvida se o cara é humano mesmo ou se não é um andróide ou um extra-terrestre, programado para desfilar, sorrir pouco, andar na praia e pegar a ponte área RJ/EUA.

Já tinha minhas dúvidas se figuras como Michael Jackson e Madonna - só para ficar no nível internacional - eram gente de verdade, de carne, osso, sangue, suor e lágrimas. No filme Men in Black tem uma cena que sugere que Michael Jackson na verdade é um extra-terrestre. Será verdade? Não sei. Mas quanto a esse Jesus Luz fico com o pé atrás. Deve ser de algum planeta invasor, cujas prentensões são se apossar dos recursos naturais e das principais passarelas terráqueas.

Se ele não for um ET, deve ser no mínimo uma criação científica desenvolvida em algum laboratório hi-tech da USP ou do MIT - Massachusetts Institute of Technology. Um robô moldado à perfeição humana, mas com um chip limitado para a interação social e com defeito no dispositivo de habilidades vocais. Quem pagou pelo projeto talvez tenha exigido que fosse assim. Ou não conseguiu esperar até que o protótipo fosse totalmente concluído.

Só isso pode explicar porque Jesus Luz não fala e não dá entrevistas. Talvez o Fantástico já tenha conseguido "pescar" alguma declaração. Aquela danadinha da Patrícia Poeta era bem capaz de conseguir esse feito, deixando Zeca Camargo bege de inveja, ciúmes e despeito. Mas, como não assisti a algo semelhante, ainda fico com a opção de que o cara não é deste planeta.

Certeza mesmo só a de que os evangélicos que pintavam os muros lá perto de casa estavam certos. Jesus vai voltar. Aliás, já voltou. Mais fashion, porém mudo e calado. E ainda dizem que o papa é pop...



Escrito por f.benites às 16h50
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

A ver estrelas

Quando era criança, eu tinha uma ritual com a minha avó, dona Vanda. À noite, íamos para a calçada e ficávamos juntos. Ela em uma cadeira e eu em outra. Ela contando histórias, eu ouvindo. Muitas vezes, esses momentos eram rompidos com a chegada das outras crianças da rua, que me chamavam para brincar. Mas, enquanto eu estava do lado dela, gostava de me inclinar sobre o seu corpo para poder ver o céu. Ela dizia que um dia eu iria crescer, começaria a namorar e me esqueceria dela e daqueles momentos. Nessas horas, me dava um aperto no peito e, no meu íntimo, sem deixar transparecer tristeza, tudo o que eu desejava era não crescer.

Mesmo com a pouca idade, eu tinha consciência de que um dia a mais na minha vida, era uma dia a menos na de minha avó. E esse medo do perdê-la me paralisava. Eu me perguntava onde e quando se daria esse momento de despedida. Vejam só, uma criança de cinco ou seis anos filosofando sobre esse tipo de coisa. Mas, a meu modo, eu conseguia filosofar. E se não ia além nos meus pensamentos não era só por conta da idade. Era por medo. Quando os pensamentos começavam a ficar mais assustadores, eu pedia para minha avó contar uma história ou pulava direto para perto dos meus colegas e ia esquecer o assunto em rodadas de polícia e ladrão ou pique-esconde.

Cresci, mas sempre que dona Vanda ficava doente, aqueles momentos ao lado dela e as perguntas que eu mesmo me fazia e não sabia responder voltavam à tona. Quando a situação se normalizava, eu só agradecia por não ter encontrado a resposta daquela vez. Com o passar dos anos, consegui controlar a ansiedade e os fantasmas que me assombravam. E olhava para o céu e me sentia feliz por que aos meus 10, 14, 18, 21 ou 25 anos eu podia repetir o gesto de olhar para as estrelas sem dor. Apesar de não estar no colo da minha avó, eu sabia que ela estava por perto. Ora ao alcance de um abraço, ora de um telefonema.

Porém, ontem, 14 de junho, às 9h15, aos 29 anos, eu tive a resposta para a pergunta que tanto me afligia quando criança. E apesar da dor e da tristeza, eu me sinto abençoado porque tive muito mais tempo ao lado de minha avó do que supunha que teria aos cinco anos. Nesse tempo todo de convivência, de nossa parte, houve brigas e desencontros, mas existiu carinho, afeto e amor numa escala infinitamente maior. Nos alternamos inúmeras vezes nos postos de quem cuida e de quem é cuidado. E tudo o que desejo é que tenha feito a minha parte bem para corresponder ao que ela me deu.

É lugar-comum desejar voltar no tempo para que a gente possa se doar mais, receber mais. Me sinto tentado a isso. A voltar no tempo para um abraço a mais, uma conversa a mais, para que dona Vanda pudesse ver mais algumas de minhas realizações pessoais e profissionais. Contudo, sei que restarão carinhos e palavras a fazer e a dizer mesmo com todo o tempo do mundo. Então, eu só quero agradecer. Pelo colo, pela companhia, pelas mesadas, pelos puxões de orelha e pelos pedidos diários de proteção.

Quero agradecer pelos momentos em que minha avó me comprou um picolé mesmo quando a ordem materna é que não tomasse nada gelado por conta da gripe. Nessas ocasiões, ela aconselhava o meu refúgio na esquina para que minha mãe não me visse. Quero agradecer, também, pelo auxílio financeiro inesperado que ela me dava quando acertava no jogo do bicho. Esse era o vício de dona Vanda. E todo dia ela dizia que não tinha acertado a milhar, centena ou dezena por pouco.

Em 2007, depois que três ladrões armados roubaram meu Fiat Uno, foram raras as vezes em que minha avó me encontrou e não me perguntou como estava o carro. Ela sabia o quanto dei duro para comprá-lo e o alívio que senti quando o encontrei. E me fazia a mesma pergunta como se para me agradar ou para ter certeza que o neto dela não havia passado por violência semelhante novamente. Enquanto teve saúde para andar, fez questão de ir até o portão ou janela só para me ver entrando no carro e me mandar um último beijo.

Em maio, no meu último aniversário, ela ligou e não conseguiu falar nada. Só chorou. Talvez soubesse que as respostas para minhas perguntas infantis estivessem próximas. Talvez fosse apenas saudades do tempo em que podia me colocar no colo para que pudéssemos ver o céu juntos. Sei que a sua vontade era de me dizer o que sempre dizia: "Estou rezando para que você possa conseguir tudo aquilo que você quer". Pois, minha avó, saiba que eu nunca quis tanto. E agora a única coisa que peço é que a senhora esteja bem.



Escrito por f.benites às 21h22
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Quatro crianças felizes

Quanto custa realizar um sonho de infância? Para mim, saiu mais ou menos por R$ 55. Foram R$ 35 de um ingresso, R$ 20 de alimentação, alguns trocados a mais e o estrago estava feito: fui ao Arruda ver o jogo da Seleção Brasileira. O jogo começou às 21h50, mas cheguei absurdamente cedo ao estádio – pouco mais de 19h. Tudo para pegar um lugar bacana, afinal, realizar um sonho tem que beirar a perfeição.

Como jornalista e crítico, tenho a obrigação de dizer que o futebol apresentado não foi dos melhores. Como jornalista e recifense, reconheço que é preciso evoluir muito para chegar ao nível de ter uma cidade com condições de receber a Copa do Mundo e milhares de turistas estrangeiros. Como torcedor-acha-que-entende-tudo-de-futebol, devo dizer que xinguei Elano até não poder mais e me emburrei com algumas jogadas.

Mas todos esses “eu” perderam espaço ontem para uma criança. Sim, porque eu parecia um menino pequeno. Na hora do Hino, gritei a plenos pulmões. Me dispersei várias vezes só para olhar pro restante da torcida, como se não acreditasse que estava ali. E na hora do jogo fiz bons amigos. Nenhum torcedor do Náutico ou algum entendido de futebol. Mas minha maior interação foi justamente com três guris, entre sete e dez anos.

Difícil saber dos quatro quem estava mais animado. Quando o jogo acabou, fiquei pensando na emoção dos três irmãos voltando para casa. Na alegria de ver os craques como Kaká, Pato e Robinho de perto. Certamente, o desejo de ser jogador de futebol cresceu em cada um deles. Talvez, tenham pedido aos pais para se matricularem na escolinha de futebol mais próxima de casa. Ou chegaram ao colégio com mil histórias para contar.

Desde que me entendo por gente, a Seleção passou pelo Recife três vezes. Em 1993, contra a Bolívia pelas eliminatórias da Copa dos Estados Unidos. Em 1994, contra a Argentina e 1995 contra a Iugoslávia, salvo engano. O máximo que minhas condições financeiras permitiram foi assistir ao treino em 93, com Romário, Bebeto e Cia. em campo. Lembro de amigos e primos que foram, acompanhados dos pais ou tios.

Eu só ouvia as histórias. Com um misto de inveja e de alegria. Sabendo que era um sonho distante, já me contentava em saber que a Seleção estava na cidade. Já ficava feliz por ter assistido ao treino. Porém, nesse dia 10 de junho, acertei as contas com o passado. Com direito a cantar hino, vibrar com gols, gritar olé e vestir a camisa verde e amarela.

Esqueci que a CBF é repleta de politicagem e de desmandos. Apenas voltei no tempo e ampliei o repertório de histórias para contar aos netos. E, durante 90 minutos, fiz três novos amigos. Saímos do estádio felizes e intensamente crianças.



Escrito por f.benites às 20h19
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Dez anos

Dia desses eu estava vendo uma cena da novela das 6h da Globo, a Paraíso. Era um diálogo entre um coronel e um matador de aluguel chamado Zé das Mortes. Me surpreendi ao ver que o assassino era interpretado pelo pernambucano Aramis Trindade. Quando eu era 2º ano, me lembro de um dia em que ele foi a minha sala fazer a propaganda de uma peça teatral. Não recordo se era isso mesmo, mas lembro bem daquela figura magra que eu conhecia das propagandas da TV tentando falar em meio à algazarra da turma.

Em uma das salas ao lado, também do 2º ano, certamente havia um aluno chamado Guilherme Berenguer, que era de outra turma do Colégio Especial. Eu conheci Guilherme através de outros amigos em comum e de vez em quando conversávamos no intervalo das aulas. Nos papos, só abobrinha. Ele, que não sonhava em ser ator, pelo menos até onde eu sei, hoje está na mesma novela e é um dos personagens em destaque da trama. Aliás, em termos de fama global é bem mais conhecido que Aramis.

Esta introdução toda não é para analisar qual dos dois é melhor ator. É que recentemente estive refletindo sobre a minha vida de dez anos atrás e no que vem pela frente nos próximos dez. Impossível não lembrar daquelas pessoas que cruzaram o meu caminho há uma década. Tem gente que pouco evoluiu, mal saiu do lugar e até mesmo involuiu. Guilherme, ao contrário, representa o outro lado da moeda. Mora no Rio de Janeiro, convive com gente famosa (é um deles), com mulheres lindas, está na TV e ganha bem. De alguma maneira, ele colocou em prática o que Lulu Santos cantava...

Garota eu vou prá Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star...

Eu não virei artista e não me frustro, até mesmo porque isso nunca foi minha pretensão. Acho até que conquistei muito mais do que, em teoria, deveria ter alcançado. Em 1999, quando entrei na universidade, uma das minhas maiores preocupações era se teria dinheiro para chegar ao fim do curso. A faculdade era pública, mas o medo de faltar grana para o lanche, para o ônibus e para as xerox me assustava. Hoje, tenho três cursos na bagagem, carro (velho, é verdade) e sou reconhecido pela minha capacidade intelectual.

Porém, apesar dos avanços e de concordar que fui além do que uma pessoa de origem humilde consegue atingir, tenho a sensação de que poderia ter crescido mais. Aos 18 anos, projetava meus dez anos seguintes num molde que reunia apartamento próprio, emprego numa revista de grande circulação, carro do ano, dinheiro em caixa, mestrado na Espanha e disponibilidade para viajar pelos quatro cantos (às vezes os clichês são necessários, já me disse um professor universitário) do mundo e do Brasil.

A década passou e as conquistas vieram. Não dentro do mundo perfeito que minha juventude criou, mas o tempo está aí e os próximos dez anos vão chegar logo. Não faço mais questão de trabalhar em uma revista de circulação nacional. O mestrado pode ser feito por aqui mesmo e a Espanha me servirá tan solamente como destino turístico. Sonhos como filhos e tempo para curti-los são bem mais presentes do que querer ter um carro 0 km.

Eu vou correr. Aliás, já estou correndo, afinal aquilo que me aguarda daqui a dez anos é fruto do que faço hoje, do que produzi ontem e do que penso em colocar em prática amanhã. E desta vez, eu quero chegar mais perto do alvo, olhar para trás e ver que assinalei mais itens verdadeiros do que falsos no meu provão pessoal de conquistas.



Escrito por f.benites às 22h40
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Titãs e Paralamas na capital

Três já foram os shows a que assisti este ano. O primeiro, Gilberto Gil na prévia do Guaiamum Treloso, beirou a perfeição. Sem multidão, lugar legal e arejado, companhia da namorada, bons amigos por perto e o ex-ministro da Cultura endiabrado no palco. Além disso, a cerveja estava gelada, descia redondo®, e a fila do banheiro andava rápido. Valeu cada centavo empregado e o saldo, no fim da festa, foi aquele sorriso estampado no rosto.

O segundo, também numa prévia carnavalesca, a do ...Enquanto Isso na Sala de Justiça, deixou a desejar. A animação para o show de Jorge Ben Jor tava a mil e alegria por ter uma das fantasias de super-herói mais criativas foram minadas por uma sucessão de shows ruins. Não sei o pior foi o do Instituto Tim Maia Racional ou da Orquestra Contemporânea de Olinda.

(Aqui, cabe um parênteses: o ...Enquanto Isso é tradicionalmente uma das prévias mais alternativas que se tem no Recife/Olinda e de repente o show tava até legal para um público que curte a tal alternatividade. Eu, que sou acostumado com aquela velha combinação samba + frevo = um carnaval legal, é que estava no lugar errado. Resultado: de saco cheio, fui embora aos 15 minutos da apresentação de Jorge Ben Jor).

Depois de um sucesso e outro fracasso, era preciso tirar a negra. A responsabilidade ficou nas mãos dos Titãs e dos Paralamas. E os digníssimos senhores não decepcionaram. Tanto que a espera de quase três horas e o fato da cerveja ser um veneno e não pegar nada leve®, ficaram em segundo plano. O show também serviu para eliminar uma dúvida pessoal. Quais das duas bandas lidera a minha preferência?

Ok, são estilos diferentes, embora os dois grupos se encaixe naquilo que se convencionou a chamar rock brasileiro anos 80. Mas era preciso eleger uma, a melhor delas. O ser humano é assim, adora fazer lista ou elaborar um ranking pessoal de suas preferências. Mesmo as maias banais. Por uma apertada margem de votos, os Titãs ganharam a briga. É incrível a vitalidade de Paulo Miklos e CIA. Ou seria Branco Bello e CIA? Ou Tony Belloto e CIA? O que dizer de um cara que agarrou a Malu Mader e nunca mais largou, né?

Os Titãs pularam de um lado para o outro (não, isso não é uma piada infame com a situação cadeirante de Herbert Viana), gritaram, cantaram. Sem migué, sem se esquivar. Fizeram melhor que muito artista por aí que emenda um pout-pourri escroto, enrola o público, embolsa a grana e não chega nem a molhar a testa de suor no palco. Desconfio que no fim do show dos Titãs deve rolar uma aplicação pesada de antiinflamatórios ou quem sabe uma sessão de massagem tailandesa para colocar as juntas no lugar.

Fiquei pensando no público acima de 40 anos que foi conferir a perfomance dos Titãs e Paralamas. Que alegria rever a banda preferida da adolescência ou do fim dela e, embalado na vitalidade dos caras, poder reviver aqueles anos passados. Também pensei na geração atual. Será que daqui a 20 anos os Detonautas, NX Zero, Tihuana, entre outras bandas ainda serão lembrados? E a vitalidade vai ser a mesma? Aposto que eles estarão mais para Léo Jaime do que os Titãs e Paralamas.



Escrito por f.benites às 18h23
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

Carnaval

Você sabe que é Carnaval, ou que pelo menos está perto da festa, quando a três dias do sábado de Zé Pereira seu chefe só vai trabalhar com uma camisa florida e um colar havaiano, lilás, pendurado no pescoço. Ou então quando todos os seus contatos do MSN ostentam nicks do tipo "Ô abre alas que eu quero passar" ou "A pipa do vovô não sobe mais". Invariavelmente, metade desses contatos sairá mais cedo para encher a cara em alguma prévia carnavalesca ou em um bloco de nome estranho.

Você sabe que é Carnaval quando encontra na manhã do sábado de Zé Pereira aquele seu vizinho sisudo, advogado, casado e pai de três filhos, descendo no elevador vestido de capitão gay, num modelito apertado e rosa. Ou então, quando se depara com o seu vizinho corretor de imóveis, sim, aquele que usa óculos de grau, camisa por dentro da calça e cinto combinando com sapato, trajado de Bin Laden. Certamente, a mão esquerda dele estará ocupada com uma cerveja e a direita irá segurar uma placa com os dizeres "Eu quero é gréia".

Você sabe que é Carnaval quando Beto Carrero morre e a notícia mal ocupa espaço nos jornais, rádios e TVs. Afinal, a atenção das pessoas está voltada apenas para os quatro cantos de Olinda, Recife, Salvador, Rio de Janeiro ou qualquer outro lugar que tenha uma mulata rebolando e uma cuíca sendo estapeada por alguém capaz de tirar som de uma mísera caixa de fósforo. Nessas horas, você se lembrará, com um certo pesar, de que a única batucada que sabe acompanhar, e ainda assim muito mal, é a música "A la ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro".

De tanto deixarem claro que é Carnaval, você se irrita e resolve ir pra Olinda. Aí, além de saber que é Carnaval, você se conscientiza que está ficando velho porque as pernas já não acompanham com agilidade o subir-e-descer ladeiras da Cidade Alta. Depois de parar de 10 em 10 minutos e beber todo líquido possível, vem a procura pelo lugar mais à sombra e com menos gente. Entre uma troça e outra, baterão saudades do tempo em que acompanhar exatos 22 blocos e cantar o hino do clube Vassourinhas exatas 147 vezes em um só dia era tão simples como respirar.

Você sabe que é Carnaval e que está ficando velho quando vê um grupo de ninfetas cercando um rapaz para beijá-lo à força, quando no passado era o contrário que ocorria. Entre as meninas, todas com metade do mamilo do peito de fora, você reconhecerá a filha caçula da melhor amiga de sua mãe. Aquela que quando você era adolescente tinha apenas idade e pensamento para brincar de boneca. Não se surpreenda se o irmão gêmeo dela, que só queria saber dos comandos em ação quando você já aprontava na vida, estiver na próxima esquina. Com a turma do jiu-jistsu e um bíceps da largura do seu pescoço.

Você sabe que é Carnaval e que está ficando velho quando cai menos na gandaia e fica na empresa escrevendo um texto horrível que ninguém vai ler. Melhor fechar o word, passar no supermercado, fazer a feira etílica, tomar coragem e comprar uma fantasia que esconda a barriga.

O texto era pra ser postado durante o carnaval, mas o computador e a internet estavam de ressaca de um baile à fantasia.

Escrito por f.benites às 15h09
[] [envie esta mensagem
] []


 

 
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]