Pele e Osso com Recheio
   
 



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Conversa Diet

Dieta não é fácil. Falando assim, até parece que estou gordo para se arrombar, ou melhor, para arrombar minhas taxas de triglicerídeos e colesterol. Sei até que é uma ofensa eu falar em dieta com meus 1,80m e 82 kg. Em tese, não deveria reclamar da vida. Mas tem umas gordurinhas na barriga que denunciam que há algo errado. E o pior: que algo doloroso e sem açúcar precisa ser feito.

Então, diante dos, er... bem... ahn... digamos “excedentes abdominais”, resolvi comer menos. Aliás, comer menos e melhor. Não é fácil. Muito pelo contrário. A lei para mandar o peso extra ao espaço é comer porções pequenas em intervalos menores de tempo. E abrir mão de toda a sorte de porcarias que nos oferecem na rua. Quase nunca isso é possível e vou me virando como posso.

Na noite de hoje, tive mais uma prova de que a luta é ferrenha. Saí direto de uma reunião no centro da cidade para o outro lado do mundo, onde fui participar como convidado de uma banca acadêmica. Entre uma atividade e outra, não sobrou tempo nem para um confeito de aveia e mel light. A aluna que me convidou falava sobre a relação entre a governança pública e as novas tecnologias e eu só conseguia imaginar a relação de um pão com queijo e presunto e ovomaltine.

Quando a reunião terminou, estava a ponto de comer o que (e não quem) visse pela frente.
Ciente de que não havia nada em casa, passei no supermercado. O primeiro teste de fogo foi logo na entrada quando vi o letreiro do Bugaloo com um cartaz do Buga Coração de Galinha. De tão gostoso, esse sanduba chega a ser pornográfico. Deviam exigir receita médica para remédios tarja preta e a comprovação da maioridade só para dificultar o acesso a ele.

Fiquei parado em pé, salivando e um com um olhar de cachorro pidão por pelo menos uns três minutos até, !!!saudemos a força de vontade do homem, irmãos!!!, consegui articular a perna esquerda e depois a direita até a direção contrária. Num misto (quente?) entre o orgulhoso e o resignado fui em direção à cestinha de compras, já pronto para outra batalha.

A segunda prova foi passar pela seção onde vendem deliciosas baguetes com presunto, salame ou frango e um punhado de tomate e alface apenas para que nos sintamos com um pouco menos de culpa. A fila estava grande e isso me ajudou a não cair em tentação, pois eu odeio fila. Aqui vai a dica aos gulosos de plantão: a baguete é vendida no Extra, mas não falem no Vigilantes do Peso que eu indiquei.

O terceiro e último teste foi selecionar o que ia para dentro da cesta. Fosse um comercial de TV, certamente veríamos dois eu. Um escolhendo pão integral, presunto ligth, cenoura e beterraba cozidas e prontas para o consumo e outro de sorriso maquiavélico e sem a mínima dor na consciência com a mão literalmente na massa: nhoc, pão bisnaguinha e biscoito recheado. Bono sabor chocolate, hmmm.

Mais uma vez o lado racional venceu e o saldo comercial foi pouco calórico. Ao voltar para casa, com a fome ainda mais canina, tratei de desembrulhar tudo com a mesma delicadeza e paciência que um guri de 14 anos tira o sutiã da namorada pela primeira vez. Não consegui desatacar o nó das sacolas e parti para a ignorância pura e crua, destroçando o que via pela frente e deixando um rastro de sacos plásticos pelo apartamento.

Daí em diante fiz valer a máxima de que nós, geminianos, temos mente fértil e uma criatividade ímpar. Devorei cada pedaço da minha janta como se fosse um Buga Coração. O leite light desceu como se fosse uma Fanta gelada em pleno deserto Saara. Entre uma mordida e um gole ia fantasiando as mais indecentes e engordantes combinações gastronômicas. Minha imaginação volúvel ia da empadinha de camarão a croiassants em poucos segundos. Tudo para facilitar a ingestão e enganar a vontade de ligar pro Habib´s e pedir seis esfihas de queijo no capricho.

Não sei se nos próximos dias terei o mesmo equilíbrio desta noite. A minha sorte para não transformar meus 82 kg em três dígitos na balança é que não sou fã de barras de chocolate ou de Big Mac. Na verdade, passo muito tempo sem olhar para doces e nem do Mc Donald´s eu gosto. A minha tara é outra. Passa muito mais pelo filé com fritas, pela cervejinha esperta e pelo churrasco onipresente na casa de Sheyla.

Por falar nela, estamos juntos no projeto da dieta. Ela que começou com essa idéia fixa de que precisava emagrecer. Deviam fazer uma tese sobre a obsessão das mulheres em pesar 50 kg. Essa parece ser uma meta sagrada que acomete a maior parte do sexo feminino. E para se encaixar neste patamar são capazes de tudo. Se o projeto não tem êxito, o namorado ou marido que se dane, pois certamente perderá a companheira de blitz em pizzarias.

Esse foi o meu caso. De tanto ouvir a palavra dieta e uma dezena de variáveis como dieta da sopa, dieta da lua e dieta do saci pererê, comecei a me questionar se não deveria embarcar na onda. E aqui estou eu, solidário e de mãos dadas com os gordinhos e com os magros neuróticos. Posso até dizer que estou ainda mais focado no projeto do que Sheyla (que, vale salientar, não precisa perder nem um grama).

Vamos nos dando força mutuamente. Se um fraqueja, o outro está lá para fazer um mini-terrorismo com informações precisas sobre proteínas, carboidratos e gorduras trans. Às vezes não funciona. No último sábado, pisamos na bola. Fomos para uma barzinho com um casal de amigos, que por sinal também vive de dieta ou pelo menos tenta. Em cerca de três horas, contabilizamos muita conversa, alegria, coxinhas de galinha, refrigentes, cervejas e batata frita.

Contudo, isso é passado e nesta segunda-feira consegui retomar a minha "jihad" diet. Pelo menos por hoje, só hoje, posso dizer: meu nome é Franco Benites, tenho 29 anos e estou há dois dias sem ingerir porcaria. E a luta continua!



Escrito por f.benites às 22h54
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