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Desinformação suína

Ser jornalista é engraçado às vezes.  Todo mundo acha que a gente sabe de tudo, que está por dentro das últimas novidades e até daquilo que ninguém nem ouviu falar ainda. Quando chego à casa de minha mãe na hora do telejornal é quase certo que ela vai comentar algo sobre o que está passando na expectativa que eu amplie a informação como se soubesse de um fato exclusivo e fosse compartilhar com ela em primeira mão. Ou como se eu conhecesse o outro lado da verdade, que por qualquer motivo não pôde ser divulgado.

Se não falo nada além daquilo que ela já sabe ou que foi dito na reportagem fica um clima de decepção no ar. Dona Antônia deve pensar por que tanto esforço em tentar me manter num colégio particular durante boa parte da vida estudantil se agora eu não consigo nem retribuir com informações exclusivas que a fizessem olhar com ar superior para as mães de outros jornalistas e dizer: “O meu filho sabe de tudo. É melhor que o Willian Bonner”.

Isso se repete em maior ou menor grau em toda família. Quando minha tia Ivone, a quem considero uma segunda mãe, me encontra e comenta um assunto que não sei logo vem a reprimenda: “Que jornalista é esse que não sabe de nada”. E não importa se o nada em questão tem a ver com assuntos tão disparatados como a Britney Spears estar grávida de trigêmeos ou Fernando Collor ser novamente candidato a presidente da República. Virou notícia, tenho pelo menos que saber o lide.

Claro que estou carregando nas tintas. Ninguém da minha família é tão carrasco comigo assim, embora sempre me utilizem como referência para saber das últimas.  Me esforço para estar antenado. Com exceção de economia, assunto para o qual não tenho muita paciência, procuro me informar sobre o que me cerca e sobre o que chama a atenção da sociedade. Mas existem assuntos que por mais que estejam na mídia eu não consigo acompanhar e me sinto analfabeto de pai, mãe e parteira.

A gripe suína é um deles. Já ouvi entrevistas no rádio, vi especialistas falando na TV, li matérias nos jornais e sites. Porém, quanto mais leio, menos entendo. A cada dia se fala algo diferente. Hoje mesmo vi uma chamada no site do JC Online que colocava em xeque a eficácia do Tamuflu para crianças. Para quem anda menos informado do que eu, esse é o medicamento indicado para quem contraiu o vírus H1N1, responsável pela gripe.

Dos profissionais de saúde, já vi e ouvi os mais diversos comentários. O mais comum é que não havia motivos para preocupação. Depois que as pessoas começaram a morrer no Brasil as declarações assumiram outro tom. Eu leio, leio, leio e não encontro uma informação segura. Só mil opiniões que, talvez para o cidadão de pensamento mediano, mais atrapalhem do que ajudem.

Lá pelos meus dez anos de idade houve o surto do cólera. Não lembro se foi em todo o Brasil ou apenas no Recife. Recordo apenas que as informações sobre como se pega e como se evita eram de fácil assimilação. Assim como a dengue. Todo mundo sabe que a dengue mata, que não se deve deixar água parada a céu aberto e a diferença entre o tipo comum e o hemorrágico. Já sobre a gripe o que vemos são dados desencontrados e o estoque de álcool em gel sumindo das prateleiras. Sem falar nas escolas fechando as portas e nas pessoas passeando pelo shopping com suas máscaras.

Tento me manter calmo e lavar a mão mais vezes ao longo do dia. Esse é um dos pontos de convergência nas reportagens que leio a respeito da gripe suína. No mais, é torcer para que o surto diminua e para que descubram logo uma vacina eficaz contra a doença. Assim, ficarei mais tranqüilo e poderei voltar, sem medo, minha atenção para outros assuntos e fazer a alegria da minha mãe e da minha tia com informações exclusivas.

Atualizado em 12/08, às 20h: No prédio da prefeitura, que tem uns 15 andares, o pânico já está disseminado. As caras são de pânico no elevador. Todo mundo se monitorando, tentando adivinhar quem está gripado ou não. É preferível soltar um pum a dar um espirro.

 



Escrito por f.benites às 22h17
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