Pele e Osso com Recheio
   
 



BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish
 

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Malandro é o gato, que já nasceu de bigode.

Nós, brasileiros, somos engraçados. Estamos sempre dispostos a falar mal do senador que emprega o neto, do candidato que distribui dinheiro em troca de voto ou do vereador que quase não comparece ao trabalho. Odiamos a classe política porque vemos nela um grupo de privilegiados dispostos a tirar vantagem de tudo e de todos.

No cotidiano, porém, nós, brasileiros, não agimos muito diferente das vossas excelências, sejam elas corruptas ou corruptoras. Basta uma mínima chance para que possamos mostrar nossa natureza e o discurso ético cai por terra. Neste feriado de 7 de setembro, tive mais uma prova inconteste da capacidade do brasileiro de querer se dar bem a todo custo.

Eu e Sheyla fomos a Porto de Galinhas buscar a mãe dela e nossa querida tia Lúcia. Passamos parte da tarde presos no trânsito, atrás de uma fila interminável de carros, vans e ônibus. A todo instante, motoristas impacientes tentavam passar a vez de quem estava na frente, mesmo que isso custasse invadir a faixa dos carros que trafegavam em sentido inverso.

Em alguns momentos, pensei que fosse arrumar briga com algum dos condutores que vinham a toda velocidade pelo lado errado da pista e tentavam colocar o carro na minha frente. Ao perceber a manobra, eu logo dava uma chega-pra-lá sutil e expulsava o invasor, xingando, intimamente, ele e as suas próximas dez encarnações e gerações.

Perguntem a esses motoristas que se aventuraram a bater de frente com outros carros para retornar mais cedo pra casa o que acham de Sarney, Collor, Palloci, José Dirceu, Renan Calheiros... A maioria diria que são uns bons filhos da puta. Depois, perguntem a eles o que acham dos filhos da puta que se acham espertos e tentam furar a fila no trânsito.

Duvido que a resposta seja tão enfática. Na certa, jorrariam um vasto manancial de desculpas. A mulher de um estaria parindo. O outro estaria levando um infartado a um hospital. O terceiro, vá lá, não daria desculpa nenhuma e de quebra soltaria um risinho sarcástico mandando o questionador para a PQP.

Nós, brasileiros, gostamos de falar que a classe política é cheia de escroques. Na hora da novela, torcemos e gritamos quando o vilão que enganou a mocinha vai parar atrás das grades. Nos enchemos de satisfação quando abrimos o jornal e vemos que algum delinqüente foi abatido a tiros. Nós, brasileiros, desaprovamos as más condutas.

Não desaprovamos da boca para fora. Acreditamos na crítica que fazemos. Mas apenas quando “o inferno são os outros”. Quando chega a nossa vez, achamos que podemos tudo. Se o foco está no eu, passa a ser lícito jogar lixo pela janela do carro, furar a fila do ônibus ou estacionar na vaga destinada a deficientes físicos ou idosos.

Hoje, talvez por estar voltando do litoral e por ser o dia em que a Independência do país foi proclamada, me recordei da música Brasil Pandeiro, de Assis Valente. Para quem não lembra, ela começa assim: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor...”. Nós, brasileiros, mostramos mesmo. E depois ainda dizem que malandro é o gato que já nasceu de bigode. Por falar em bigode, talvez sejamos todos Sarneys... por mais que neguemos.

ps) este texto é dedicado a todos os motoristas que, mesmo cansados, mostraram-se educados e mantiveram-se em seus lugares, sem querer tomar a vez de ninguém e sem achar que o mundo é dos mais espertos.



Escrito por f.benites às 22h43
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